Quando começamos a escolher os outros e não a nós

Quando perdemos o respeito pelo nosso corpo, pela nossa dignidade?
Quando permitimos que abusassem de nós física e moralmente sem que nos defendessemos?
Tento procurar uma explicação. Tento procurar no passado as respostas para tantas gerações de mulheres que consideram ser normal escolher os outros em detrimento de si mesmas.
Tento lembrar-me das vezes sem conta em que não me defendi. Em que deveria ter exigido respeito pelo meu corpo e pela minha integridade. Em todos esses momentos perdi um pouco de mim, aceitando o inaceitável como normal.
Nesses momentos, assinei a minha sentença como tantas outras mulheres neste mundo.
Lembro-me de Sukhon. Uma jovem de 20 anos, do Camboja que recebera a notícia de que o seu pai estava gravemente doente e que necessitaria de cuidados médicos. Cuidados estes que a família não tinha possibilidade de pagar.
Sukhon ficou desesperada com a possibilidade de perder o seu pai e procurou uma solução rápida para arranjar o dinheiro. Nesse momento, também ela escolheu o outro e não a si. Nesse momento, ela procurou servir e salvar o outro, deixando de parte tudo o que sentia, tudo o queria e era.
Sukhon caíra nas mãos das ‘Mamasans’. Chulos femininas que vendem a virgindade de jovens raparigas.
Homens ricos pagam milhares de dólares para fazer sexo com uma jovem inocente e, como resultado, o ‘tráfico de virgens’ tornou-se um grande negócio.
Muitas raparigas são traficadas. Outras vendem a virgindade porque estão desesperadas por dinheiro e como consequência caem na vida da prostituição.
Sukhon foi comprada por um homem chinês. Foram primeiro a um restaurante e depois para um quarto de hotel.
O homem mandou-a tirar a roupa e tomar um banho. Ficou coberta apenas com uma toalha. Uma toalha que parecia demasiado pequena para esconder o seu medo e a sua vergonha.
Nesse momento ela estava a tremer de angústia. Queria sair daquele quarto, fugir para os braços da sua mãe e sentir-se segura de novo.
Mas como tantas outras mulheres, e como todas nós em algum momento, ela escolheu a outra pessoa e não a si.
Tremendo e paralisada ao mesmo tempo, ela concordou em fazer sexo e perdeu muito mais do que a sua virgindade.
Embora muitas o façam para apoiar financeiramente os seus familiares, as raparigas são posteriormente excluídos pelas famílias e pela comunidade local.
Também Sukhon seria afastada da sua família. Apesar de salvar a vida do pai e este estar grato, ele não suportava a realidade que a filha teria criado para si.
Sinto que devo a a todas as Sukhon’s do mundo defender a minha integridade e o meu amor próprio. Devo isso a todas elas mas acima de tudo, devio-o a mim própria.



