A forma como amamos..

Tudo acontece num contexto, incluindo a forma como amamos.
Precisamos de estar conscientes das falhas prejudiciais da imagem do amor que a nossa sociedade criou. Precisamos de resistir à imaturidade superficial e frustrante que ela alimenta.
Os contos de fadas que todos conhecemos, amamos e que persistem no tempo são obra duma indústria e não poderiam estar mais longe da verdade. Contos que foram caiados e higienizados.
Os contos de fadas que conhecemos foram alterados para retirar qualquer tipo de dor, desconforto ou obscuridade.
Não há nenhum beijo de outra pessoa que nos proteja da nossa própria sombra profunda. O amor verdadeiro ou a alma gémea só será descoberta após um processo de discernimento. Discernimento de nós mesmos e do outro. Mas nenhuma destas valiosas lições de vida é abordada nos contos de fadas que conhecemos. Dizem-nos como crianças que a vida pode ser um conto de fadas mas não o deve ser. A vida não deveria ser assim.
A dor é um veículo para o crescimento. É quando nos rendemos a esse vazio que encontramos a plenitude essencial. Tal como o sapo na história original, o nosso ego só será despedaçado por muita dor e depois da dor virá a nossa humanidade. Ao contrário do que nos querem fazer acreditar, não devemos evitar a dor a todo custo. A dor é uma forma de consciência profunda, inevitável e uma das mais poderosas que podemos ter.
Devemos, de consciência plena, desenvolver uma forma mais aberta e madura de nos relacionarmos. Ao contrário do que a indústria cultural criou. Precisamos de trocar a agitação e o tumulto por uma intimidade maior.
Na verdade, o amor nunca falha. Os relacionamentos não podem falhar porque cada relacionamento é um espelho perfeito de quem somos naquele momento. É através do relacionamento íntimo que vemos como precisamos ainda de crescer e de como precisamos de curar o nosso interior. Até que estejamos curados, sabendo que não há um momento especifico que possa ser predefinido. Estaremos sempre nesse processo de cura e evolução.
Sem haver esse processo de cura, continuaremos a usar os relacionamentos pelos motivos errados. Tais como, dependências emocionais, possessividade ou controlo.
É uma repetição do que vivemos na nossa infância. Se os nossos pais dependiam emocionalmente de nós, exigiam muito de nós, controlavam-nos e amavam-nos condicionalmente, iremos sofrer e fazer sofrer, até que despertemos.
Ao curarmos a nossa criança interior, não necessitaremos que o outro nos preencha. Porque não há ninguém de fora que deva ou possa atender às nossas necessidades essenciais. É uma responsabilidade nossa. É a nossa jornada individual.
A ideia de um amor romântico é na verdade uma ilusão. É baseado num vazio interior que nos faz acreditar que só alguém de fora poderá cessar a nossa fome e a nossa dor.
E todos caímos nessa ilusão porque pensamos que existe alguém perfeito que nos pode consertar. Esse amor é baseado nos ideais errados e num passado da nossa infância. Ele fará apenas com que recriemos o controlo, a dependência, a possessivadade e o amor condicional que vivenciamos.
Um amor condicional em que se o outro nos fará sentir bem e seguir todos os pré-requisitos de um parceiro perfeito, nós iremos amá-lo. Mas se a outra pessoa ousar ser humana ou ser falível. Se ela estiver numa luta interior ou mude, nós iremos odiá-lo, porque sentimo-nos traídos. É um amor condicional.
A tomada de consciência é uma jornada. É um processo de despertar lento que tem tantas camadas. Cada um fa-lo ao seu ritmo.
É tão simples e tão difícil ao mesmo tempo. Porque o nosso ego ou corpo da dor como Eckhard Tolle o chama, tem mágoas da infância por curar e isso bloqueia a nossa capacidade de evoluir.
Não podemos amar-nos até que consigamos curar-nos. Isso requer dedicação. Requer estar verdadeiramente comprometido a trilhar o caminho desconhecido. Mas por onde começar?
Comecemos por olhar-nos ao espelho e sermos dolorosamente transparentes. Precisamos de admitir que não estávamos a ser autênticas até agora.
Precisamos de abrir a nossa mente para os medos que nos estão a bloquear. Temos de procurar a verdade.
A maior ilusão relacionada com o amor é acreditar que a outra pessoa está aqui para nos preencher ou completar. Que podemos controlá-la e dizer lhe exatamente como deve atender às nossas necessidades.
Saindo desse pensamento, libertamo-nos a nós e ao nosso parceiro, pois achamos também que somos superiores para atender às necessidades do outro mas não o somos.
Temos de ser mais vulneráveis e deixar de parte a vergonha. No fundo, a vergonha é o medo de desconexão. Medo de não ser aceite pelo outro. Negamos a nossa vulnerabilidade com medo da desconexão. Porém, são precisamente as pessoas com uma vulnerabilidade excruciante que têm uma honorabilidade, pertença e sinceridade única e apaziguante.
A sua vulnerabilidade é dotada de coragem. Elas contam a sua história com a coragem de serem imperfeitos. Estão dispostas a deixar quem pensavam ter de ser e tornarem-se apenas quem são. Abraçam totalmente a vulnerabilidade, acreditando que o que nos torna vulneráveis, torna-nos belos. Uma beldade que transcende qualquer característica física.
Uma vontade de fazer algo onde não há garantias, sem controlo ou previsões.
Lutamos contra a nossa vulnerabilidade. Silenciamo-la apesar de vivermos num mundo vulnerável. Não podemos escolher viver apenas alguns sentimentos. Não podemos ignorar os sentimentos ou anestesiá-los. Quando aniquilamos os sentimentos que consideramos difíceis, estamos igualmente a anestesiar a alegria, a gratidão e a felicidade. É então que ficamos infelizes e procuramos um sentido na vida, o que pode ser um ciclo vicioso.
Queremos tornar o incerto certo. Quanto mais vulneráveis somos, mais medo temos. Porém é ai que reside a cura. Devemos permitir-nos à vulnerabilidade e não à culpa. A culpa é uma forma de descartar a dor e o desconforto. Nós somos dignos de amor e de pertença. Somos dignos de ser vistos. Profundamente vistos, vulneravelmente vistos.
A vulnerabilidade é o cerne da vergonha e do medo, da luta e do valor. Este é o berço da alegria, da criatividade e do amor.
O que pode parecer um colapso emocional é na realidade um despertar espiritual.



